quarta-feira, 2 de junho de 2010

Jeff Purves e o pontapé inicial


Sem comunicar a Vicente e fazendo o que tem que ser feito, dou a largada no blog.

Alguns ambientes da internet são mais metafísicos do que outros, e refazer o trajeto de pesquisas não-relacionadas que me fizeram lembrar nessa noite fatídica do nome de Jeff Purves, um desenhista marcante em meus primórdios nerd, é praticamente impossível.

Purves foi um dos primeiros desenhistas por quem desenvolvi um certo tipo de afeição e uma das primeiras ocasiões em que me recordo de identificar no traço da história uma caligrafia muito peculiar. O que não significa dizer que gostasse do estilo dele - na verdade, creio que havia até o dia de hoje um certo impasse em meu cérebro quanto a gostar ou não da arte do sujeito, e essa ambigüidade é intrigante (sendo que acompanhei o arco do Hulk por ele desenhado sem piscar) mas me faz entender todas minhas escolhas como fã e autor de quadrinhos.

Quando comecei a ler HQs 'profissionalmente', por volta de 1992, comecei pela mesma categoria de base que qualquer boy começaria num Brasil pré-mangá: Marvel Comics.

Os gibis do Homem-Aranha (Homem-Aranha e A Teia do Aranha) e O Incrível Hulk eram publicados em formatinho, com 84 pgs cada, e eu gastava todo dinheiro que conseguia angariar com mesada e chantagem comprando esses três títulos. Os 3 artistas de destaque nessas 3 revistas eram também os responsáveis pelas histórias principais de cada título - respectivamente: Todd McFarlane em Homem-Aranha, Ross Andru n'A Teia (que republicava histórias aracnídeas dos anos 70) e Jeff Purves n'O Incrível Hulk.

Considerando que tinha 11 anos de idade, o processo de eliminação para determinar algumas verdades era quase singelo: compreendi que as histórias em Teia eram antigas não só por meio dos cenário e das roupas dos personagens, que pareciam as usadas em dramas da Sessão da Tarde passados em hospitais em filmes dos anos 70, como as próprias feições dos personagens eram talhadas de modo diferente - mais 'clássicas', e parecidas em seus ângulos com desenhos animados ou de publicidade. A primeira edição da Teia que li foi a de número 25 e, se me lembro bem, esse foi o marco zero do meu entendimento do conceito do que eram super-heróis. Nessa edição Peter Parker tascava um beijo em Mary Jane ao se despedir dela num aeroporto, parecia uma novela da Globo. Ross Andru tinha uma linha elegante e perfeitamente equilibrada, mas ao mesmo tempo dotada de uma fúria inquietante por detrás das sobrancelhas angulares de seus personagens: era como se, em seus traço, o estilo dos desenhos de Hanna & Barbera de fato se movesse.

Eu gostava de Ross Andru, gostei de cara.

Todd McFarlane a princípio me causou estranhamento. Seus personagens pareciam todos gordos, plásticos, imaginava que reluziriam sob a luz se existissem de fato. O Homem-Aranha tinha as lentes de sua máscara ridiculamente grandes além das coxas de uma dona de casa sedentária. Quando se balançava em suas teias pela cidade, parecia estar lutando contra algum tipo de dor lombar cavernosa e filha da puta. O cabelo de Mary Jane agora era uma coisa impossível, um tipo de algodão doce laranja e selvagem. Ao tirar a máscara, o cabelo de Peter Parker parecia o de um ator pornô. Algumas das escolhas de McFarlane me pareciam um pouco ridículas, além de mal desenhadas (o equivalente a tudo isso no léxico de um pirú de 11 anos de idade é 'exibido'). Alguns dos usos de silhueta, não me pergunte como, atribuí a mera preguiça.

O ponto onde quero chegar é que McFarlane, após algum tempo, se tornou uma obssessão, uma das primeiras. Aos poucos comecei a entender uma lógica arrojada na idéia de se apresentar personagens com distorções corpóreas, ângulos impossíveis, arte-final imunda (lembro que ele era um dos únicos desenhistas creditados com o simples termo 'arte'), cabelos que parecem perucas fritas. E tinha também Venom, ao qual eu deveria dedicar um post a parte.

Em suma, me achava do caralho por 'entender' Todd McFarlane. O fato é que uma pessoa que presta esse grau de atenção obssessiva ao traço deste ou daquele desenhista obviamente não tem muita habilidade para outras coisas, tais como se relacionar socialmente e ter uma teia de contatos que evite que pense e haja como um nerd alienado. Por esse motivo, entre tantos outros, me encontrava alheio ao fato de que McFarlane era um dos artistas mais populares dos quadrinhos de super-heróis de todos os tempos.

McFarlane foi o primeiro vigarista que me cativou nos quadrinhos, e nos anos seguintes meus personagens começaram a cada vez mais parecerem roliços e a tentar ângulos impossíveis ao escaparem de explosões e rajadas de metralhadora. Mas quando Spawn finalmente chegou ao Brasil, percebi que McFarlane possivelmente era um merda limitado e ganancioso.

E havia também Jeff Purves.

O Hulk agora era cinza,além de mais fraco e pequeno (ou ao menos do tamanho d'O Coisa) e se vestia feito um capo. E também atendia por ''Sr. Tira-Teima" e travalhava como guarda-costas em Las Vegas, onde namorava uma gostosa vulgar de dois metros de altura. Essa fase escrita por Peter David era um pouco demais para eu entender, mas não sei se por nostalgia ou uma propensão iconoclasta e esnobe, se tornou uma das minhas prediletas - todavia, na época o que realmente chamou minha atenção foi a arte. Os personagens eram feios, não tem outra maneira de exprimir a dura verdade. Mais feios que encoxar a mãe no tanque.

Parecia que todos reviravam os olhos feito gente possessa, e que tinham escorbuto. Pensei que o desenho desse sujeito era inacreditável, categoricamente uma fraude. "Como deixam esse cara desenhar um gibi de super-heróis". Etc.

Olhando uma série de capas de sua fase de 19 edições em The Incredible Hulk (algumas das quais não foram utilizadas nas edições brasileiras, sendo que as vi pela primeira vez hoje), entendo o porquê.

Purves não é um cara em hipótese alguma talhado pra desenhar super-heróis. Seu traço é o de um ilustrador de gibis de fantasia, e do tipo com severas limitações. Seus seres humanos parecem meio gnomicos, com cabeças achatadas, olhos estrábicos e aquela expressão puta que se traduz em bocas arreganhadas com dentes pequenos se mostrando, indistintas entre si. As mulheres tem olhares mortiços e vagamente drogados, seu esporádico uso de hachuras é de uma cara-de-pau impressionante.

Na verdade, uma mudança de paradigma estava em processo. Na época, a Editora Abril publicava as histórias do universo Marvel com uma defasagem cronológica de quatro anos em relação aos Estados Unidos, fato que descobri analisando de modo nerd, obssessivo e sudoríporo pequenas seqüências de números e letras que corriam paralelas às linhas de algum dos quadrinhos da página inicial de cada história. Sim. Hoje é a Noite dos Flashbacks Aleatórios.

Essas histórias foram produzidas (ou ao menos publicadas) por volta de 1987-8 nos EUA, logo na seqüência da publicação de O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Não me arriscaria a dizer que Miller influenciou Purves em qualquer sentido, mas uma reformatação quanto ao que era esteticamente aceitável nos gibis de heróis estava em andamento. Embora Purves não tivesse a maestria no uso de silhuetas, narrativa, ângulos ou basicamente NADA daquilo que tornou Miller o Pica-Mor dos quadrinhos por algum tempo, Purves (talvez fortuitamente) tinha em comum com Miller um gosto por personagens de cabeças quadráticas, olhos mortiços, gente inegavelmente feia.


Em sua entrada na Lambiek.net, é explicado de modo semi-nebuloso que desenhou suas 19 edições do Hulk e depois passou a 'outros campos artísticos'. Nenhum outro trabalho com quadrinhos é mencionado. Será que mais gente achava o traço dele uma merda? Um bando de moleques ianques de 11 anos se chateou e mandou cartas cheias de ameaças, talvez?

A fase de Purves no título se encontra ensanduichada entre uma com a arte do próprio McFarlane (a anterior), que fez seu nome no título antes de partir para uma longa jornada no título principal do Aranha, e outra assinada por Dale Keown (que assumiria o título no capítulo final da saga "Contagem Regressiva" e faria seu nome no título para depois zarpar rumo à reluzente, cromada, splashpagerística Image Comics junto com McFarlane). Aliás, sob um certo ponto de vista, a entrada de Purves poderia ser vista como um mínimo de visão editorial ao acolher um artista com um traço mais irreverente e 'desleixado' logo após outro de reputação similar. Mas esse é só algum gatilho nerd inevitável disparando contra meu cérebro ao pensar sobre coisas que não pensava em uns 10 anos ou mais, e não tenho qualquer evidência factual sobre. Aliás, é possível que esse texto, e outros que por ventura publique, contenham inverdades ou coisas rememoradas de modo grotescamene distorcido.

De modo que eu achava esse cara, esse Purves, um tiro n'água. No entanto, em alguns momentos, conseguia fazer estalar algo de realmente foda no cérebro de um guri de 11 anos.

É o caso da capa da edição 354 (notem o Hulk numa vibe blaxploitation sob o logo da Marvel). Só me deparei com essa capa num estado mais avançado e vagamente patológico de nerdice, quando comecei a garimpar sebos e aumentar minha coleção com gibis de segunda mão.


Como disse, estava tentando começar a entender gibis de super-heróis. Desde quando era muito novo, lembro de haver um ou dois gibis de super-heróis perdidos em meio a um acervo que me parecia enorme de gibis Disney e Maurício de Sousa (em um desse/s um ou dois gibis, havia uma história do Batman que hoje sei ter sido desenhada por Neal Adams, onde o Batman mata um tubarão após ter sido jogado num aquário com as mãos atadas pelo Coringa), mas minha mãe se recusava a ler desses para mim.

Não sei como meu cérebro registrou tudo isso, mas obviamente tinha um ar grotesco que associei com algo... massa. A versão que Purves apresentou do Hulk tem o aspecto de um daqueles bonecos animatrônicos blefosos que só se via em filmes da Bandeirantes. Observem a cara achatada (salva em parte pela bela/tosca colorização), a orelha de lutador de jiu-jitsu totalmente desnivelada em relação ao micronariz grotesco. Os traços duros. A 'preguiça' na hora do cabelo.

Até hoje não sabia se gostava ou não da arte de Purves, e na verdade a questão se tornou irrelevante - dentre os três, foi certamente o que mais me influenciou como desenhista e pode apostar que essa é uma daquelas ironias.